Palestra: Sir Arthur Conan Doyle – Espírita ou Espiritualista?

Para comemorar o quarto aniversário da Sociedade Espírita Sir Arthur Conan Doyle, em junho de 2011 foi proferida uma palestra sobre o patrono da casa, Sir Arthur Conan Doyle, e a sua importância para a história do espiritualismo:

CONAN DOYLE

Nasceu 1859 – Faleceu em 7 de Julho de 1930, aos 71 anos – Parada cardíaca

Era atleta amador: jogador de futebol, criquete, natação, box, equitação, etc.

Escreveu 60 livros, 10 dos quais relacionados à realidade espiritual, 12 de Sherlock Holmes

Membro da The London Spiritualist Aliiance – The College of Psychic Science (1955) e The College of Psychic Studies (1970)

Depois de sua morte, teria aparecido em espírito em reunião privada na casa de Mrs Osborne Leonard, em 1937, a única que a família confirmou com autêntica.

Envolvimento em polêmicas

Em 1876, envolveu-se no caso George Edalji, advogado de origem indiana, alvo de preconceito racial, que foi acusado injustamente de ter sacrificado, de forma brutal, vários animais numa provinciana região inglesa. Ele escreveu da prisão para o detetive Sherlock Holmes e teve caso elucidado pelo próprio Sir Arthur, que levantou todos os erros feitos durante o julgamento. Logo em seguida, utilizando seu nome e sua conceituada visibilidade em jornais para causar um polêmica de repercussão nacional. Essa história é contada no romance Arthur & George, de Julian Barnes.

Em 1909, Oscar Slater, um judeu alemão, foi setenciado a morte pelo assassinato de Marion Gilchrist. Doyle investigou o caso, descobriu novas evidências, ouviu testemunhas ignoradas pelo promotor público e publicou um livro com um apelo ao perdão. O caso ficou conhecido como um dos mais escandalosos erros da justiça escocesa.

História do Espiritualismo

Considerado o “São Paulo do Espiritualismo”, Conan Doyle deixou a tradição católica jurando que nunca mais acreditaria em nada que não pudesse ser provado. Era materialista, mas acreditava em uma força inteligente por trás do universo, embora não na sobrevivência da alma após a morte. Fez muitas brincadeiras com os crédulos, com os que acreditavam em “fantasmas”, na vida após a morte, e inclusive, por meio de Sherlock Holmes, chegou a recomendar um polêmico livro que achincalhava a crença na realidade espiritual. Sentia, contudo, um vazio interior.

Em 1880 Conan Doyle começou a participar de palestras sobre estpiritualismo e, reuniões mediúnicas, assunto sobre o qual escreveu um artigo para a revista espiritualista The Light contando sobre uma reunião mediunica onde um médium o aconselhou – ‘Não leia o livro de Leigh Hunt’. Ninguém mais sabia que ele estava debatendo consigo mesmo se deveria ou não ler o Comic Dramatists of the Restoration, do autor citado pela entidade. Considerou, na época, evidência de telepatia e continuou estudando o fenômeno.

Só em 1987 ele declarou-se convertido ao Espiritualismo, em cartas escritas ao editor da revista Light, depois de ler e ponderar sobre livros de John W. Edmonds, Camille Flammarion, Alfred Russel Wallace e Alfred Drayson. Querendo atestar o que esses escritores que tanto respeitava haviam visto, ele organizou sessões de mesas girantes e mediunidade. No entanto, apenas em 1916 ele começou a divulgar o Espiritualismo, por causa da guerra. O primeiro livro sobre o assunto, The New Revelation, foi publicado em 1918.

Não era médium, mas teve várias experiências que o convenceram. Disse que apenas lunáticos não acreditariam tendo a evidência que ele teve. Ouviu “a voz inconfundível do filho”, viu a mãe e o sobrinho “tão nítidos como sempre os vi em vida!”

No polêmico livro “A Chegada das Fadas” (1921) reproduziu teorias sobre a natureza e a existência de fadas e espíritos.

Em 1924 traduziu o livro de Leon Denis – Jeanne D’Arc Medium (Paris: Librairie des Sciences Psychiques, 1910).

Em 1926, publicou The History of Spiritualism, onde apresenta o Espiritualismo em perspectiva histórica. Esse livro foi traduzido no Brasil como “A História do Espiritismo”, embora trace o histórico do movimento espiritualista como um todo.

Em 1928 demitiu-se da London Spiritualist Alliance, da qual tinha sido presidente, e no princípio de 1930 saíu da Society for Psychic Research. Para os detratores do Espiritualismo, essa demissão, pouco antes de sua morte, significaria que Doyle teria renegado a filosofia. No entanto, a saída dele deve-se ao fato de que Conan Doyle achava que ambas as sociedades estavam a ser demasiadamente rigorosas nos seus critérios, engessando o Espiritualismo e impedindo o seu avanço.

Prova do contrário é que ainda na semana anterior à sua morte, Doyle integrou uma delegação que foi requerer ao Home Office, ministério do interior britânico, a revogação do Witchcraft Act – ou Ato da Bruxaria – lei de 1733 que originalmente visava reprimir a feitiçaria e a vagabundagem, mas que nas últimas décadas do séc XIX e nas primeiras do séc XX foi usada pelas autoridades britânicas para condenar um grande número de médiums.

Como Allan Kardec, Conan Doyle acreditava que o Espiritualismo era ciência, filosofia e religião – tinha um respeito profundo por Jesus, que considerou o homem e o médium mais perfeito a descer na terra. “Não há nada que exija mais dedução do que a religião… ela pode ser construída como ciência exata por aquele que usar a razão”.

Transcrição do vídeo

Na apresentação, há um raro vídeo que Sir Arthur Conan Doyle gravou em outubro de 1928 para testar a “nova invenção”. A gravação foi feita no jardim de sua casa em Windlesham e nela aparece também o cãozinho Paddy, da raça Terrier irlandês. [Fonte: “The Adventures of Arthur Conan Doyle” de Russell Miller, 2008, Thomas Dunne Books, ISBN-13: 978-1-61523-180-5]

Na primeira parte, ele fala sobre a criação do detevive Sherlock Holmes. A seguir, o trecho em que ele fala de sua crença na sobreviência da alma, a partir do minuto 5’05”:

“O outro ponto, que é para mim, claro, o mais sério dos dois temas, é sobre eu ter abraçado assuntos psíquicos. Minhas primeiras experiências naquela direção começaram mais ou menos na época em que Sherlock Holmes estava sendo construído em minha mente, entre 1886 e 1887, então ninguém pode dizer que eu formei minha opinião em assuntos psíquicos de forma apressada. São agora 41 anos desde que eu escrevi um artigo sobre o assunto, publicado em uma revista chamada Light. Portanto eu me coloco com experiência de 41 anos, onde nunca perdi nenhuma oportunidade de ler, estudar e testar o assunto.

As pessoas me perguntam se voltarei a escrever mais alguma história de Sherlock Holmes, o que certamente não acho que seja provável, pois a medida que envelheci, os assuntos espirituais também cresceram em intensidade, comecei a levar mais a sério e acredito que nos anos que me restam eu provavelmente me devotarei mais, seguindo mais naquela direção do que na direção da literatura, a menos, claro, que precise voltar a escrever. Mas minha ideia principal é estender, se puder o conhecimento que já tenho de assuntos psíquicos e espalhar o máximo que puder esse conhecimento para que o mundo seja menos desventurado.

Não creia por um momento sequer, claro, que os estou tomando para mim, nem que quero dizer que sou o inventor do espiritualismo, eu sou apenas o principal exponente dele. Conheci vários grandes médiuns, muitos receptores de fenômenos psíquicos, muitos investigadores de todos os tipos, o máximo que posso fazer é ser um amplificador do assunto, saindo e conhecendo pessoas cara a cara, para tentar fazê-las entender que não é a besteira que é normalmente apresentada, onde as pessoas não sabem o que é de fato: uma grande filosofia, e acho eu, a base de todos os aprimoramentos religiosos do futuro da raça humana.

Suponho, como já disse, que haja mais médiuns, bons e ruins e medíocres, do que qualquer outro ser vivo, conheço uma grande diversidade pois viajo muito, e em todo o mundo, onde quer que eu vá, na Austrália, América, África do Sul, os melhores salões de conferência são colocados à minha disposição.Quando pessoas que não têm experiência nenhuma, ou muito pouca, ou talvez nunca tenham frequentado uma seance, vêm me contradizer, não levo a oposição delas muito a sério, como se pode imaginar. Quando eu falo deste assunto, não falo sobre que eu acredito, nem sobre o que acho. Falo sobre o que sei – entre acreditar e achar, há o saber. Falo de coisas com as quais lido todo o tempo, que há anos vejo, ouço, e sempre na presença de testemunhas, nunca arrisco alucinações. Geralmente, na na maioria dos meus experimentos há 6, 8 ou 10 testemunhas, todas vendo e ouvindo as mesmas coisas.

Gradualmente, fui ficando mais e mais convencido sobre o fenômeno, à medida que estudei, ano após ano. Mas foi apenas durante os tempos de guerra, quando todos esses esplêndidos jovens companheiros estavam desaparecendo de nossas vistas, e o mundo inteiro se  perguntando ‘o que aconteceu com eles? Onde estão? Que estão fazendo agora? Dissiparam-se no nada, ou ainda são os grandes companheiros que conhecíamos?’. Foi apenas naquela época que eu me dei conta da grande importância que era para a raça humana saber mais sobre esse assunto. Foi então que mergulhei me dedicando mais a isso tudo e encontrei o maior propósito ao qual eu poderia me dedicar os anos que restam de minha vida, que seria tentar trazer para outras pessoas algo como o conhecimento e a certeza que eu mesmo obtive.

Certamente que não foi algo injustificado para mim. Eu tenho certeza que posso encher uma sala de minha casa com as cartas que recebi de pessoas me contando sobre a consolação que minhas palestras e escritos sobre o assunto trouxeram para elas. Tudo o que eles têm, mais uma vez, como eu tive, é o som de uma voz desaparecida ou o toque de uma mão que sumiu.”

Obtuário

O obtuário de Conan Doyle, publicado na Time Magazine na segunda-feira, 31 de março de 1930, mostra o uso das palavras Spiritist’ e ‘Spiritism’ para descrever suas crenças, em vez de ‘Spiritualist’ e ‘Spiritualism’. Não sabemos se isso se deve ao fato de Conan Doyle ter usado mais o termo em palestras proferidas nos últimos anos de sua vida ou em entrevistas, mas conversas entre ele e a irmã, registradas no livro Arthur & George, de Julian Barnes, mostram que ele usava as palavras ‘Spiritist’ e ‘Spiritism’, assim como ‘Spiritualist’ e ‘Spiritualism’. A tradução a seguir é nossa para os trechos relevantes, destacados na apresentação:

Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes e espírita notável, morreu hoje em sua casa, Windlesham, em Crowborough, Sussex. Ele tinha 71 anos. (…)
Ao seu lado quando faleceu estava Lady Doyle, seus dois filhos e filha. A doença de Sir Arthur era atribuída ao trabalho na Escandinávia em outubro passado, quando deu uma série de palestras sobre o espiritismo.(…)
Não havia nenhuma dúvida na mente de Sir Arthur sobre a existência dos espíritos. Uma de suas provas da existência dos espíritos era uma enorme fotografia de si mesmo que mostrava o rosto de seu filho morto olhando por cima do ombro. Ele mostrou essa imagem para o correspondente e disse, simplesmente:
“Eu mesmo controlei a placa da foto. Ninguém mais a tocou. Como as pessoas podem duvidar quando se tem uma prova como essa?”
Pouco tempo atrás, Sir Arthur disse:
“Comprometo a minha honra na veracidade do espiritismo, e eu sei que o espiritismo é infinitamente mais importante do que a literatura, arte, política, ou em qualquer fato no mundo.”
(…) Mas de todos os seus vários trabalhos, Sir Arthur considerou sua devoção ao espiritismo, que ocupou a maior parte do seu tempo após a guerra, como o esforço mais importante de sua vida. (…)
Seu filho, da primeira esposa,  foi morto na  Primeira Guerra Mundial, e foi essa tragédia a grande responsável para o interesse quase exclusivo de Sir Arthur no espiritismo, durante seus últimos anos. (…)
Nos últimos anos, ele dedicou praticamente todo seu tempo à propagação do espiritismo, e foi reconhecido como um dos grandes líderes da crença do mundo. Por causa de sua associação com esta cruzada que ele próprio caracterizou como um impopular, ele gradualmente perdeu alguns de seus velhos amigos do tempo da literatura, que não viam nenhuma força no espiritismo e tendiam a vê-lo como um excêntrico. (…)
Ele até abriu uma “livraria psíquica” e um museu espírita em Victoria Street, à sombra da Abadia de Westminster. Lá ele criou um centro para a literatura espírita e distribuía em boa parte do mundo.”

Sobre essa pesquisa

As pesquisas que resultaram nesse slide foi feita em junho de 2011 por um membro de nossa equipe para uma palestra em nosso centro. Fique à vontade para usar essa obra para contar um lado pouco conhecido da história de nosso patrono. Agradeceremos se puder dar o crédito à nossa casa, e entrar em contato nos avisando que usou esse trabalho e contando como foi a experiência.

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